Genealogia – Imigração RS

HIST01
Imigrantes à espera do embarque, no porto de Gênova.

Italianos começam a chegar em 1875. Fugindo da pelagra, sonhavam com o país da fartura.

A propaganda falava em país da fartura. Num dos cartazes afixados no porto de Gênova, o desenho sugere que a comida caía do céu. Nos folhetos, prometia-se transporte gratuito, hospedagem, assistência durante os primeiros tempos, Instrumentos de trabalho, sementes, assistência médica, Instrução para as crianças e crédito para comprar um lote de terra.

HIST02
Cartaz da propaganda, prometendo terra e abundância no Brasi

Aliciar imigrantes para a América tornara-se um bom negócio na Europa, desde 1830. Consequência direta da revolução industrial, em todos os países havia numerosa população excedente no campo e nas cidades. De outro lado, havia um mercado para mão-de-obra barata se abrindo na América devido às crescentes restrições ao tráfico de escravos africanos. E havia uma estrutura escravista com mais de um século de experiência no transporte de cargas humanas, que estava ficando ociosa.

Recém-unificada e em transição acelerada do feudalismo para o capitalismo, com quase 30 milhões de habitantes, a Itália era o melhor desses mercados de mão-de-obra barata e abundante em 1870. Milhões de italianos tinham bons motivos para acreditar em qualquer coisa, até mesmo no paraíso terrestre. Eram camponeses despojados de suas terras, artesãos superados pelas máquinas, pobres e suas proles numerosas que se amontoavam nas cidades. Ameaçados pela fome, parecia não haver lugar para eles naquele mundo em transformação. “Para fazer fogo, tinham que secar esterco de gado…para defender-se do frio, muitos dormiam juntos dos animais.” As novas leis sobre a terra favoreciam os grandes proprietários e oneravam os camponeses, que perdiam suas glebas. Nas cidades, os pequenos artesãos não tinham amparo. Em 1874, quando os primeiros colonos chegavam ao Rio Grande do Sul, mais de 350 mil italianos já haviam saído para outros países. Nos 25 anos seguintes, quase 4 milhões sairiam da Itália, um milhão para o Brasil. 0 Rio Grande do Sul receberia 84 mil imigrantes italianos até o final do século.

HIST03
Um grupo de colonos e funcionários diante da casa do Imigrante, em Caxias.

A viagem durava um mês na terceira classe de um navio superlotado, sem assistência médica, comida precária, dormindo no chão. A maioria dos autores que escreveu sobre a imigração italiana fala em alojamentos infectos, epidemias, mortes. Mas não se conhece uma estimativa sobre o total de mortos. Seriam crianças, na maioria.

Desembarcavam no Rio de Janeiro, onde ficavam de quarentena na Casa dos Imigrantes, na Ilha das Flores. Daí partiam em vapores para Rio Grande numa viagem de dez ou mais dias, passando para barcos menores nos quais chegavam a Porto Alegre .

Na capital, eram alojados em barracões precários ou “dormiam nas ruas e praças próximas”. Seguiam, dias depois, em pequenas embarcações, até Montenegro, São Sebastião do Caí ou Rio Pardo. Desses pontos, a viagem prosseguia a pé, em lombo de burro ou carretas.

Os imigrantes trataram de sobreviver como podiam. Eles haviam feito uma viagem sem volta. Dias, através de picadas abertas, na mata virgem. Caetano Cortelini, que chegou à colônia de Dona Isabel em 1880, conta em depoimento: “Abrimos, eu e minha esposa, picadas a facão e várias noites pernoitamos na mata, até chegar ao lote que nos correspondia… À noite, passávamos por momentos terríveis quando, próximo à nossa pequena proteção de estacas e coberta de galhos, ouvíamos o barulho de qualquer ser vivente…Isso nos deixava em contínuo sobressalto”.

Na colônia, voltavam a ficar em barracões de madeira, as chamadas Casas de Agasalho, até serem fixados em suas propriedades. Saíam ao amanhecer para trabalhar, à noite retornavam para o barracão. Essa situação durava o tempo suficiente para limparem o terreno e erguerem uma improvisada moradia no respectivo lote. “No início, ficavam numa tenda. As roupas e alguns mantimentos eram guardados no âco das árvores para proteger da umidade”, segundo o relato de João Scalco, cujos pais estabeleceram-se na colônia Alfredo Chaves, em 1892.

HIST08

Diante das dificuldades e promessas não-cumpridas, muitos pensavam em desistir. Mas nada mais possuíam, tinham que ficar. Desta constatação surgiu o lema: 0 que se vince, o pur si muore (ou se vence ou se morre).

Para assentar os imigrantes da Itália, o governo brasileiro destinou 32 léguas de “terras devolutas’, agora já não mais nas áreas planas e férteis dos vales dos rios Caí e Sinos, para onde foram os alemães. As áreas que restavam para colonização, inclusive por pressão dos grandes proprietários, ficavam na acidentada encosta da Serra, região ainda selvagem e de difícil acesso.

As primeiras colônias foram demarcadas em 1870. Chamaram-se Conde D’Eu e Dona Isabel, origem de Garibaldi e Bento Gonçalves atuais. Cabia ao governo da Província “importar” os colonos, e o presidente Francisco Xavier Pinto Lima contratou empresas privadas para trazerem 40 mil imigrantes num prazo de dez anos.

Receberiam 60 mil réis por adulto e 25 mil réis por criança. Para se ter idéia do valor os Colonos compravam seus lotes por preço que variou entre um e cinco réis o metro quadrado. Ou seja, com o que recebiam por adulto, dava para comprar um hectare da melhor gleba da colônia.

Foi um bom negócio para muita gente. Proliferaram os agentes e subagentes de imigração, uma rede de intermediários, “todos interessados em enganar o imigrante e o governo, para apenas ganhar dinheiro”. Não podia funcionar. Um ano depois, haviam chegado apenas 37 famílias à colônia de Conde D’Eu e nenhuma em Dona Santa Isabel. Em cinco anos, não chegavam a 4 mil os imigrantes.

Ante o fracasso, devolveu-se a tarefa ao governo imperial, e os embarques foram retomados. Em 20 de maio de 1875, chegaram ao Campo dos Bugres os primeiros grupos vindas de Belluno, Treviso, Pádova, Mântova e Tirol. Desembarcavam em São Sebastião do Caí e seguiam até a Picada dos Boêmios, para alcançar o ponto chamado Barracão, que depois se chamaria Nova Milano. Os primeiros a chegarem à Sétima Légua, que daria origem a Caxias do Sul, foram Amalia Zoletti, Gottardo Rech, viúva Maria Velanzin, Andréa Salvatori, João e Antonio Viecelli.

Em 1877, aquela colônia passaria a se chamar Caxias. Era a terceira colônia italiana no Rio Grande do Sul, ocupando 17 léguas quadradas. Antes de completarem cinco anos, as três primeiras colônias- Conde d’Eu, Dona Isabel e Caxias – já tinham em conjunto mais de 10 mil habitantes. Em 1884, começaram a ser organizadas outras três colônias contíguas a Caxias: São Marcos, Nova Pádua e Antônio Prado.

HIST09

Retomado em 1848, depois da Guerra dos Farrapos, o projeto de povoar com imigrantes as regiões do Rio Grande do Sul ainda não incorporadas à pecuária sofreu modificações importantes a partir de 1854, quando uma nova lei definiu a formação das colônias. As medidas básicas continuavam sendo a légua e o lote rural. A légua era uma antiga medida portuguesa de 6.600 metros quadrados de terreno, cortado por caminhos estreitos e irregulares abertos no meio da mata e chamados travessões ou linhas. Cada légua era dividida em 132 lotes, também de tamanho variável entre cinco e 30 hectares, conforme a localização, as condições de acessos, água etc.

HIST10
Bento Gonçalves por volta de 1890.

Mas, a partir dessa lei, as terras deixaram de ser doadas aos imigrantes, passando a ser vendidas. Eram financiadas com dois anos de carência e prazo de cinco anos para pagar, estendendo-se muitas vezes esse prazo para 15 anos. 0 governo oferecia a possibilidade de os colonos trabalharem 15 dias por mês, na abertura de estradas, na região, em pagamento dos lotes que recebiam.

0 preço da terra variava entre um e cinco réis a metro quadrado. Após o pagamento de um terço do débito, o colono recebia um título provisório. Quando a dívida fosse integralmente quitada e comprovado que o lote foi habitado e cultivado, ele recebia o título definitivo. 0 contrato previa também o fornecimento por parte do governo de instrumentos de trabalho e sementes, mas essa assistência foi sempre incerta. A maioria teve que se ver com as precárias ferramentas – enxada, foice, facão – que conseguira trazer da Itália. Muitas vezes, por falta de um simples machado, um grupo de colonas levava semanas para limpar uma pequena área, valendo-se apenas de facões para derrubar as árvores. Outra alteração importante foi no tamanho dos lotes.

Aos primeiros alemães, que chegaram em 1824, foram concedidas unidades com até 77 hectares. A lei provincial de 1854 limitou os lates em 100 mil braças quadradas (48 hectares). Mas a maioria dos lotes destinados aos imigrantes italianos não ultrapassavam os 30 hectares.

Todo o processo de demarcação e organização das colônias ficava por conta da Inspetoria Especial de Terras e Colonização, que tinha núcleos coloniais para efetuar a divisão, medição e assentamento dos colonos nas terras. Nas colônias, a inspetoria estava representada pela Diretoria da Colônia, composta por engenheiros, desenhistas, topógrafos, tradutores e escriturários, responsáveis pela demarcação, divisão e distribuição dos lotes. A legislação previa a participação dos colonos através de uma junta governativa de oito membros: o diretor da colônia, o médico e seis colonos escolhidos entre os proprietários de títulos definitivos de lotes.

HIST15
Caxias, a terceira colônia, em 1884.

Em 1879, o governo suspendeu qualquer despesa oficial com a imigração. Apenas vendia o lote a crédito e oferecia trabalho remunerado 15 dias por mês, na abertura de estradas. A maioria dos autores consagra a estimativa que cifra em 84 mil o número de italianos que se fixaram no Rio Grande do Sul, no ciclo inicial da imigração, de 1875 a 1914, a maioria vinda da Lombardia, do Vêneto e do Tirol. Mas a historiadora Luiza Iotti menciona um relatório publicado no Boletim de Negócios Exteriores da Itália, em 1898, que estima 160 mil Imigrantes italianos no Rio Grande do Sul, até aquele ano. Certo é que a maioria dos italianos que imigraram para o Brasil nesse período se fixaram em São Paulo, trabalhando em regime de parceria ou como assalariados nas fazendas de café e depois na indústria, como operários. Foi, aliás, a necessidade de substituir a mão-de-obra escrava por assalariados nas fazendas de café que fez acelerar o programa de imigrações a partir de 1850.

No Sul, a imigração atendia à necessidade de povoar as terras, para produzir e para contrabalançar o poder dos estancieiros-militares. Atendia, também, ao interesse, presente desde que o processo se iniciou com os alemães: de “branquear” a população.

HIST14
Bugres e bugreiros

0 território ocupado pela colonização italiana havia sido habitat de comunidades nativas de caçadores e coletores de pinhão, do grupo Gê, pouco conhecidos. E deles que vem o nome Campo dos Bugres, original da área onde se estabeleceu a colônia de Caxias. Não há registro de incidentes desses indígenas com os colonos. ,~ Já haviam abandonado a região ou os que ainda restavam estavam aculturados. É, no entanto, conhecida a figura do bugreiro, o caçador de nativos da Serra.

HIST16

As primeiras atividades não foram de plantio, mas de limpeza do mato, construção das casas e abertura dos caminhos. Só depois começavam as lavouras, geralmente, pelo milho. De fácil cultivo e rápida colheita, ele fornecia o principal alimento – a polenta – e a palha, que era forragem para os animais e enchimento para os colchões. 0 trigo, cujo plantio e colheita intercalava-se com o milho, vinha na seqüência para garantir o pão e a massa. A palha do trigo servia para fazer longos metros de dressa (espécie de trança), utilizada na confecção de chapéus e cestos.

A colheita era motivo para festas entre as famílias que se auxiliavam. “A cada saca de produto, fazia-se um sinal a facão numa táboa. Quando alguém chegava a 100 sacas de trigo, era alvo de grandes comentários.” Outras culturas de inverno, como centeio e cevada, vinham a seguir. Em todo o lote, eram plantadas árvores frutíferas: laranjeiras, bergamoteiras, macieiras, marmeleiros, figueiras etc. As frutas forneciam também os doces e compotas. Além do boi e da vaca, galinhas e porcos. Em poucos anos: vinho, graspa, salame, presunto, toicinho, banha e queijo.

As mudas de videiras trazidas da Itália não sobreviveram. Os alemães, que já haviam passado por experiência semelhante, com espécies trazidas do vale do Reno, é que forneceram as mudas de uva Isabel, de procedência norte-americana, muito bem adaptadas na região, que passaram a ser plantadas junto às casas, nas áreas de encosta. A produção de vinho artesanal logo se expandiu e em pouco tempo começou a ter mercado fora da colônia, tornando-se a principal fonte de receita e dando origem às primeiras cantinas. Foi a venda do vinho que forneceu os primeiros capitais a serem investidos nas pequenas oficinas que mais tarde se tornaram indústrias.

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Centro de Caxias no final do século.

A extração da madeira foi outra fonte Importante de renda desde os primeiros momentos. A abundância e a variedade de espécies facilitou o desenvolvimento de madeireiras, embriões da indústria moveleira da região. O pinheiro (araucária) era abundante em toda a região serrana e foi largamente usado pelos colonizadores na construção de moradias, móveis. carroças e implementos de trabalho. Outras espécies nativas, como o cedro, o ipê, o angico e a cabreúva, foram largamente utilizadas também.

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Trêm, que chegou a região em 1910.

Já nos primeiros anos, o prato principal de qualquer mesa da região era a polenta (preparada com farinha de milho moída e cozida em água), feita pela manhã, quando era consumida ainda quente e cremosa. Na colazzione (marmita levada para aqueles que estavam no trabalho da terra), havia a polenta brustolada, torrada sobre uma chapa de ferro.

Data desses primeiros tempos de carência alimentar a passarinhada, hoje proibida na região, mas ainda muito apreciada pelos colonos. Este gosto particular é explicado de duas maneiras: a abundância de aves encontradas na região e a necessidade de buscar ainda na natureza os primeiro alimentos levou os colonizadores a caçarem os pássaros também se justifica o hábito como forma de proteção à lavoura, devorada por bandos de aves que deveriam ser exterminadas.

HIST23
Carreta, por muito tempo o único meio de transporte, atravessando o rio.

No início, o intercâmbio comercial se resumia à troca de cereais por artigos ou por animais, dada a escassez de moeda e as dificuldades de transportar os produtos. Depois começaram a surgir os carroceiros, balseiros ou simples tropeiros e mascates que foram os primeiros elos de ligação entre as colônias e delas com os mercados maiores.

Puxadas por bois, mulas ou cavalos, as carroças ou carretas foram por muita tempo o único melo de transporte para cargas pesadas pelos caminhos difíceis da Serra. Os balseiros operavam no rio das Antas, principalmente, transportando madeira, um dos bons negócios com o crescimento dos núcleos urbanos na região alemã e em Porto Alegre.

Os mascates percorriam as linhas a cavalo, levando fumo, cachaça, charque, tecidos, perfumes e outras novidades às terras mais isoladas, muitas vezes em troca pela produção caseira. Sem condições de estocar seus produtos e com dificuldade para transportá-los até os centros de consumo, os colonos entregavam os excedentes aos estabelecimentos de comércio que se instalavam em pontos estratégicos, como a colônia do Caí, de onde as mercadorias podiam seguir pelo rio até Porto Alegre.

HIST12

Casa de negócios Vicente Rovêa e Cia., por exemplo, estava localizada num amplo prédio, situado junto à saída de Caxias, em direção a Ana Rech. Uma grande variedade de produtos fazia do estabelecimento parada obrigatória para os tropeiros da Serra. Era um centro de trocas, desempenhando o papel de correios, recebendo e enviando correspondência entre as colônias e até emprestando dinheiro aos colonos. Em alguns casos, como fazia Giuseppe Eberle, pai de Abramo Eberle, os colonos deixavam com o comerciante o dinheiro das vendas e ele administrava essas pequenas poupanças, pagando juros mínimos e garantindo capital de giro para a expansão de seus negócios.

Era exigência que o imigrante fosse agricultor, já que a meta principal da imigração no Sul era ocupar o território e aumentar a produção agrícola. Entre eles, no entanto, havia muitos profissionais e artesãos, registrados como agricultores. Foram estes que deram impulso ao surgimento de oficinas e pequenas indústrias, assim que os núcleos começaram a se desenvolver. A dificuldade de comunicação com os centros mais desenvolvidos e a necessidade de equipamentos para suprir os colonos da região estimularam esta diversificação de ofícios. Seis anos depois da chegada dos primeiros colonos, em 1882, a vila de Caxias já registrava a existência de uma fábrica de cerveja, uma oficina de sabão, uma funilaria e várias oficinas de ferreiro, além de 73 moinhos.

Por sua localização geográfica, num centro de passagem para outras colônias, Caxias conhece um desenvolvimento econômico mais rápido que as demais. Além da forte produção agrícola dos seus moradores, servia de entreposto comercial entre os Campos de Cima da Serra, as colônias do Nordeste e Porto Alegre. Em 1890, já emancipada, Caxias registrava a existência de 235 indústrias e seis casas de comércio. 0 crescimento acelerado dessa produção de fundo de quintal, num primeiro momento, impulsionado pela demanda local, dos próprios colonos, desenvolveu uma tendência entre muitos autores: de explicar o desenvolvimento da indústria no Rio Grande do Sul por uma “evolução natural” desses artesanatos e oficinas primitivos da região colonial. Por essa visão, das toscas oficinas de conserto teriam nascido às metalúrgicas,as ferrarias gerariam as fundições, a cantina caseira cresceria até transformar-se na grande vinícola e assim por diante, num desenvolvimento contínuo que teria como motor o trabalho e a vontade de progredir.

HIST24
Queijeiro, Abel Postali

Sem dúvida, muitas das grandes indústrias, que hoje estão entre as maiores do Estado ou mesmo do Brasil, tiveram origem em pequenas unidades artesanais. Mas hoje novos estudos cuidam de relativizar esses casos. Em trabalho recente, o economista Eugênio Lagemann demonstrou a fragilidade dessa interpretação “ingênua e idealizada” do desenvolvimento econômico regional. “Ela considera que o desenvolvimento de uma empresa é um processo linear, sem saltos, sem incorporações de capital, de técnica e outros elementos externos”, diz o economista. Um exemplo estudado por ele é o da Metalúrgica Abramo Eberle, de Caxias, cuja origem remonta a uma funilaria que fabricava lamparinas em 1896 e por isso considerada “paradigma da indústria que se originou de um artesanato. Na verdade, a empresa passou por uma série de associações, fusões, incorporação decapitais externos e tudo mais”, diz Lagemann.

O próprio capital inicial com que Eberle ampliou sua oficina de lamparinas, ainda em l886, foi obtido fora do negócio. Nesse ano, aos 21 anos de idade, ele conseguiu organizar com a poupança própria e de outros colonos um carregamento de 25 contos de réis em mercadorias – graspa, vinho, salames e queijos – para vender.

De carreta, transportou a mercadoria até São Sebastião do Caí, passou para um vapor até Porto Alegre e daí foi até São Paulo para vender todo o carregamento. Com o lucro desse negócio é que ampliou a oficina, com nova linha de produtos. Esse exemplo revela o fator talvez decisivo no progresso das colônias: o início da urbanização e a expansão do mercado de consumo brasileiro.

HIST19

Chegando à sua gleba, o imigrante tinha logo que construir um abrigo, uma choupana, que fosse, para proteger-se do frio e dos animais selvagens. Era uma questão de emergência, e daí resulta que as primeiras casas eram muito precárias. Às vezes, um rancho de pau a pique, coberto de palhas. Muitas eram construídas com varas ou pranchas de pinheiro, cobertas com folhas ou tábua lascada, denominada scandole.

As moradias definitivas eram de madeira-tábuas de pinho com colunas de anjico ou pedra e eram amplas. 0 lambrequin, detalhe decorativo, de madeira recortada na borda dos telhados, tornou-se marca registrada. 0 local preferido para a construção das casas eram as encostas suaves, para facilitar a localização do porão, indispensável para o depósito de cereais, local para carnear animais, cantina para o vinho e a graspa.

HIST20

Para a fabricação de tábuas, cortavam-se “pinheiros de copa” (araucária). Com serra manual, transformavam as toras em tábuas: um serrador ficava em cima da tora, posta sobre cavaletes e outro embaixo. Trabalhavam dias a fio. A cumeeira era alta, para dar lugar a um sótão onde se podia guardar, sem risco de umidade, amendoim, feijão, lentilha, ou servir para dormitório de hóspedes em ocasião especial. As janelas não tinham vidro.

A cozinha ficava geralmente separada. Segundo Rovílio Costa, “por medo de incêndios”. Com o fogo sempre aceso, em meio a material combustível, a cozinha era sujeita a incêndios, pois os primeiros imigrantes não conheciam o fogão. Para cozinhar, usavam o foccolári, que consistia num caixão retangular revestido de madeira, forrado por dentro com terra batida e uma cavidade no meio onde se acendia a lenha. Para cozinhar, especialmente a tradicional polenta, as panelas eram suspensas a uma corrente, chamada “la catena”. À noite, o fogo era coberto com cinzas para conservar o braseiro e facilitar o reacendimento no dia seguinte. “Se alguma janela se abrisse, o vento podia reacender o fogo e causar incêndio durante a noite.” Por isso, a casa, onde se guardavam documentos, dinheiro e bens, tinha que ficar preservada. Era costume, traçar uma cruz sobre as cinzas para pedir proteção contra o possível incêndio.

A cozinha funcionava como sala de estar, servindo como local das refeições e encontros familiares.Na “casa” ficavam os quartos e uma sala, usada em raras ocasiões, como enterros, casamentos ou para receber visitas muito importantes. No pátio, próximo a casa, o forno para pão, o estábulo sempre isolado e a latrina feita de tábuas.

Nos tempos primitivos, não era comum pintar as residências, provavelmente por falta de tinta. Usava-se uma mistura de tabatinga (pó de arenito, avermelhado) e óleo de cactus, dissolvido em água, que protegia a madeira.

Um projeto de preservação do Patrimônio Histórico, hoje reconhecido pela Unesco, tombou prédios representativos dessa arquitetura que ainda estão intactos em Bento Gonçalves, na colônia de São Pedro. Foi idealizado pelo arquiteto Julio Pozzenato e pelo engenheiro Tarcísio Vasco Michelon. Apresenta todos os tipos de construções típicas da região, reproduzindo ambientes domésticos e de trabalho. Mas é Antonio Prado, a sexta colônia, criada em 1886, que possui o maior acervo urbano da arquitetura em madeira da colônia no Rio Grande do Sul. Muitas dessas construções circundam a praça principal da cidade, exibindo sismalhas e cornijas, características do final do século assado. São 48 casas tombadas pela Unesco.

Uma das características dos imigrantes destinados ao Rio Grande do Sul era a arregimentação de famílias inteiras – pai, mãe, filhos, nonas, agregados e compadres. Nesses pequenos clãs, raramente menos do que oito pessoas, a mulher tinha um papel central. De modo geral, além da criação dos filhos, sempre numerosos, e das lides domésticas, ainda era mão-de-obra auxiliar no trabalho da lavoura. Nesse contexto, surgem figuras como Maria Paoletti Rech e Gigia Bandera, que assumem traços de heroínas por sua determinação e fibra.

HIST11
Ana Rech(ao alto) e um grupo de mulheres ao final da colheita de trigo.

Ana Rech é fundadora do bairro que tem seu nome em Caxias do Sul. Decidiu vir para o Brasil em 1877, depois de enviuvar, com sete filhos, um deles excepcional. Como não conseguia obter autorização para viajar, ameaçou atirar-se com os filhos no rio Piave. Ao chegar, instalou-se na Sétima Légua da colônia de Caxias, no local conhecido como travessão Leopoldìna, decidida a trabalhar com comércio e hospedagem. 0 local era ponto de passagem dos tropeiros dos Campos de Cima da Serra (Vacaria) que seguiam em direção à cidade para comerciar seus produtos. No final do século, sua estalagem servia de referência aos viajantes, abrigando tropeiros e colonos, além de servir de armazém para os moradores de Caxias.

Luigia Carolina Zanrosso Eberle veio da Itália em 1884 com quatro filhos. Seu marido Giuseppe Giácomo Eberle comprou de Francesco Rossi uma funilaria em 1886. Luigia vai morar sozinha na vila para assumir a funilaria e aprender o ofício. Durante dez anos, exerceu a profissão de funileira, fazendo baldes, bacias, lamparinas. Teve mais seis filhos. Quando deixou a funilaria para se dedicar exclusivamente aos filhos, a produção já incluia produtos feitos em cobre, alambiques, caldeiras, máquinas de sulfatar. o filho mais velho, Abramo Eberle, assumiu o negócio em 1896. Foi ele o responsável pela expansão da pequena oficina e durante 49 anos esteve à frente da empresa, pioneira na industrialização do Estado.

HIST13
Missa dominical em Forqueta

Ao contrário da maioria dos alemães, que sofreram cerceamentos por serem protestantes, num país em que a religião oficial era a católica, os italianos fizeram da atividade religiosa o foco da sua vida comunitária. “A escola e o professor não são exigidos pelos colonos, assim como exigem o padre e a Igreja”, diz um relatório do governo provincial de 1886. Em cada núcleo colonial, a igreja ocupava o ponto principal, e a construção de igrejas e capelas mobilizava sempre a participação coletiva, com doação de material e trabalho voluntário. Os estilos e materiais eram variados, desde simples casinhas de madeira até a imponente obra de pedra talhada ou de tijolos artesanais, transportados para o local um a um pelos fiéis enfileirados. Freqüentemente separado do corpo principal das capelas, o campanário concentrava as atenções em todos os templos católicos da região. Em Flores da Cunha, por exemplo, um dos primeiros núcleos da povoação colonial, a Igreja Matriz, construída nos anos 20, ostenta o “o maior campanário de pedra do país”. 0 projeto foi feito pelo arquiteto Vitorino Zani, a pedido do Frei Capuchinho Eugênio de Garibaldi. Sua construção contou com a colaboração de toda a população e de pedreiros do então distrito de Nova Pádua que o erigiram com 11.122 pedras talhadas à mão. Nele estão instalados cinco sinos, o maior deles com 1.200 quilos de bronze.

Mas não só as grandes naves revelam a primazia dos templos – Também os capitéis, as pequenas capelinhas construídas ao longo de estradas, geralmente numa encruzilhada, ou em terras particulares, testemunham a religiosidade dos imigrantes e a freqüência dos cultos familiares. Suas formas podem variar desde uma cruz com cobertura de duas águas, uma capelinha com uma imagem e até capelas maiores com pequenos altares. Eram erigidos, muitas vezes, para testemunhar uma graça recebida ou dedicados a santos de sua devoção. 0 fervor religioso era cultivado com rigor nas famílias. Havia orações para todo o momento: para a manhã, para a noite, para a hora das refeições. ” À noite, mesmo cansados, rezávamos o terço, de joelho no chão, encostados nos bancos, ao lado da mesa… alguns vencidos pelo cansaço mal balbuciavam…”, conta o depoimento de um pioneiro.

HIST04
Missa inaugural da Capela de Veranópolis em 1888.

Foi decisivo o papel das igrejas na aglutinação dos colonos e na formação das cidades e vilas, em toda a região de ocupação italiana no Estado. Muitos padres, principalmente os italianos que acompanhavam os imigrantes, ajudavam a superar a saudade, mas, por outro lado, dificultaram a adaptação à nova cultura, procurando manter a ilusão de que ainda estavam na Itália através do uso da língua natal e da pregação e manutenção da moral.

Muitos núcleos, no entanto, desprovidos de sacerdotes, cultivavam o hábito de reunirem-se para celebrações, rezas e outros ofícios litúrgicos sob a batuta de leigos cristãos. Devido à distância entre as colônias, as reuniões eram raras e preparadas com antecedência. As “festas de igreja” do século passado ajudaram a promover muitos namoros e casamentos e são, ainda hoje, um hábito cultivado pelas comunidades do interior da região italiana gaúcha. Após o terço, com freqüência, fazia-se um leilão em benefício da capela. Era leiloado um porquinho, uma ovelha, uma galinha. Durante as cerimônias religiosas, fazia-se a coleta (limosina) numa bolsinha de couro, presa no topo de uma haste.

HIST05
Caxias do Sul

No início da colonização, os vigários eram os encarregados do Império para receber as declarações para o registro de suas terras. Cabia a eles instruir os fiéis da obrigação do registro dos lotes dentro do prazo estabelecido pelo governo e alertar os colonos sobre as penalidades que poderia acarretar o não-cumprimento dessa obrigação. As informações eram repassadas, multas vezes, durante as missas. Aos padres também cabia o registro, em livro, dos nascimentos, casamentos e óbitos, até a organização do registro civil. De acordo com Bernardin Piemont, executavam também o papel de intermediários entre os cônsules Italianos e os colonos, sendo utilizados, de certa forma, como “agentes oficiosos” da Itália.

O interior das pequenas capelas e capitéis guardam também grande parte da produção artesanal da arte sacra da região colonial italiana. A maior expressão se concentra nos altares e nas portas ou em pequenas imagens de santos esculpidas em madeira pelas mãos de artistas anônimos. As pinturas são pouco encontradas, reveladas principalmente em frisos decorativos com motivos florais ou geométricos.

HIST06
Pietá esculpida em cedro por um colono.

Os cemitérios também revelam a religiosidade e a criatividade dos imigrantes. Até o início do século, os mortos eram sepultados em covas no chão, que recebiam mudas de flores e uma cruz de madeira ou ferro. Há também exemplares de basalto e mármore. Inicialmente, os cemitérios eram divididos em setores, com locais para o sepultamento de crianças batizadas e não-batizadas e adultos. Suicidas, não-católicos, pecadores públicos e aqueles que não contribuíam com as despesas da capela da comunidade não podiam ser sepultados em terra abençoada: eram enterrados fora do muro de pedra que determinava os limites do cemitério. Na medida em que iam progredindo economicamente, as famílias passaram a ostentar seu enriquecimento através da construção de jazigos familiares, cuja arquitetura reproduzia a forma de capelas.

La América

Canção dos Imigrantes cantada em dialeto vêneto, de autor anônimo, sobre a aventura da América

Da l’Itália noi siamo partiti,
Siamo partiti c´o i nostri onori
Trienta e sei giorni de machina a vapore
E nela Mèrica noi siamo arrivà.

Nela Mèrica noi siamo arrivati,
No abiam trovato n´è pàglia, n´e fieno
Abiam dormisto su´l nudo terreno,
Come le bestie abiam riposà.

E la Mèrica, l´è lunga e l´è larga
L´è circondata de monti e de piani
E co´la industria dei nostri italiani
Abiam fondato paesi e cità.

Mèrica, Mèrica, Mèrica,
Cosa serála sta Mérica ?
Mèrica, Mèrica, Mèrica,
L´è un bei massolino de fior.

Tradução

Da Itália nós partimos/ Partimos com a nossa honra/ Trinta e seis dias de trem e vapor/ E na América nós somos chegados / Na América nós chegamos/ Não encontramos nem palha, nem feno/ Dormimos no solo nu/ Como animals repousamos// Mas a América é grande e é larga/É formada de montes e planícies/ E com talento de nossos italianos/ Fundamos vilas e cidades// América, América, América/ 0 que será esta América?/América, América, América/ Um belo ramalhete de flores.

Fonte : História Ilustrada do Rio Grande do Sul – Zero Hora

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