Genealogia – Italianos no Brasil

LOUVE-SE QUEM DEVE SER LOUVADO

Louve-se quem deve ser louvado. Assim sendo, quero louvar a idéia da Parmalat de comemorar seus vinte anos de sucesso empresarial em nosso país com a publicação de um livro sobre os italianos no Brasil: a vitoriosa empresa é de origem italiana. O livro que se vai ler, planejado e redigido por intelectuais brasileiros, ressalta a importância da presença dos italianos entre nós, sua contribuição para nosso desenvolvimento, para nossa cultura, para nossa vida. A presença dos italianos no Brasil, uma saga de amor.

Abandonemos, porém, tais contradições familiares para louvar a presença criadora dos italianos no Brasil. Muitos chegaram trazidos pela necessidade, outros escapavam da perseguição política. Os primeiros vieram substituir os escravos, recém-libertados, no árduo trabalho nas fazendas de café no Sul do país, sobretudo em São Paulo. Os segundos fugiam às limitações políticas, anarquistas contestatários. Uns e outros ajudaram a construir a pátria brasileira. O bom sangue italiano misturou-se aos demais, tantos outros, nas veias dos mestiços brasileiros.

Vale salientar dois aspectos importantes da contribuição dos italianos para nosso desenvolvimento. Aspectos referentes às áreas da cultura e da vida política. Num e noutro caso, essa contribuição foi fundamental. No que se refere à cultura, deve-se logo constatar a atividade no Brasil de importantes intelectuais vindos da Itália que aqui estiveram, atuaram e conosco colaboraram. Alguns viveram entre nos durante certo tempo; outros, a maioria, vieram e permaneceram, ficaram aqui para sempre fizeram-se brasileiros, dos melhores.

Entre os que aqui estiveram e depois regressaram à Itália, desejo citar pelo menos os nomes de Ruggero Jacobbi e de Adolfo Celi. Ruggero Jacobbi teve destacada atuação na vida literária dos país e Adolfo Celi, na vida teatral. Quando já os julgávamos integrados de todo na sociedade brasileira, retornaram à Itália, onde desenvolveram atividade não menos importantes na literatura, no teatro e no cinema.

Inúmeros foram os que vieram e ficaram, citarei apenas alguns nomes, aqueles que ocorrem à minha memória falha. Decerto cometerei injustiças ao não fazer referência a outras personalidades ilustres e importantes. Que elas me perdoem, os leitores também.

Melhor do que eu, podem dar testemunho os pintores e escultores, os gravadores e os desenhistas. Mário Cravo, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Carybé, Calasans Neto. Lina foi uma espécie de figura tutelar das artes baianas. A ditadura militar, reacionária e obscurantista, obrigou-a a ir-se da Bahia. Ela voltou alguns anos depois para restaurar uma das mais belas casas da cidade, situada na Ladeira da Misericórdia. Citei os Bardi, deveria citar tantos outros, da mesma altura intelectual. Pintores, escultores, gente de teatro e de cinema. Chamaram-se Volpi, Brecheret, Gianni Ratto, Alberto d’Aversa, Paulo Rossi, tantos e tantos outro – sei que estou esquecendo nomes que deveria nomear para a cada um agradecer. Não quero, contudo, que falte o nome de Ciccillo Matarazzo – a família Matarazzo construiu a grande indústria paulista; Ciccillo era o amigo dos artistas.

Quando aos descendentes dos italianos, nem se fala! Foram brasileiros por excelência, brasileiros principais. Menotti del Picchia é o exemplo maior da poesia romântica no movimento modernista brasileiro. Cândido Portinari é o mais nacional de nossos artistas, pintor dos heróis e da gente anônima do povo. Nosso teatro se afirma com Itália Fausta e não podemos esquecer que Maria Della Costa é oriunda de mãe vêneta.

Os italianos estão presentes em todos os aspectos de nossa cultura, em todos eles, da língua que falamos ao futebol tetracampeão do mundo, estão presentes nos manjares que comemos. A língua portuguesa que falamos e escrevemos no Brasil começou a modificar-se, a enriquecer-se e a ter caráter próprio quando os navegadores portugueses entraram em contato com os indígenas, depois de cruzar os “mares nunca d’antes navegados”. Expressões de línguas indígenas infiltraram-se na língua de Camões, ampliando-lhe o vocabulário. Os negros, vindos da África nos navios de escravos, não se contentaram com o enriquecimento do vocabulário, fizeram bem mais, fizeram uma revolução na gramática da língua portuguesa. Puseram abaixo, na fala e na escrita brasileiras, as regras mais sagradas, ensinadas nas escolas às crianças. No colégio dos jesuítas aprendi ser erro imperdoável, crime contra a boa redação, iniciar-se a frase com pronome oblíquo. Mas os negros recusaram-se a dizer e a escrever “dê-me”, “faça-me”, “ame-me”, e ao recusá-lo fizeram muito bem. dizemos e escrevemos nos começos das frases: “me dê”, “me faça”, “me ame”, mais fácil, mais doce, mais bonito.

Também os italianos nos ajudaram nessa recriação da língua herdada de Portugal, para fazê-la língua portuguesa do Brasil. Em determinada época, em bairros de São Paulo, centro maior da imigração italiana, falou-se o “ítalo-paulista”, espécie de curioso dialeto, cuja memória permanece no divertido livro de Juó Bananeri. Os italianos marcaram também nosso futebol, tão belo e tão inventivo. Muitos dos maiores jogadores quatro vezes campeões do mundo traziam no sangue a paixão futebolística dos italianos. Ao escrever sobre a presença italiana no Brasil, não quero deixar de citar o clube de futebol Palestra Itália, o atual Palmeiras, ontem reduto da torcida italiana, hoje dono de uma das maiores torcidas brasileiras.

Igualmente de maior importância a influência dos italianos sobre a nossa vida política, o desenvolvimento das idéias, seu debate e sua expansão. Pode-se dizer, sem faltar à verdade, que a esquerda brasileira nasceu dos anarquistas italianos e espanhóis que criaram no Brasil centros operários, centros de cultura política. Hoje seus descendentes são militantes e dirigentes dos mais importantes partidos nacionais, atuam nos parlamentos, no federal e nos estaduais, assim como no poder Executivo e no Judiciário.

Para se determinar a importância da presença dos italianos no Brasil, não bastam umas poucas páginas, exige-se pelo menos um livro. Um livro como este que a Parmalat realiza e publica e que louvo neste arrevesado prefácio – deve-se louvar o que merece ser louvado.

HERÓIS ANÔNIMOS

Muito antes do primeiro imigrante italiano chegar ao porto de Santos, no século XIX, o Brasil já vinha convivendo intensamente com genoveses, sicilianos, lombardos e vênetos. O imigrante foi também precedido pelos navegadores, recrutados na península pelos portugueses, espanhóis e outros povos colonizadores. O marco nítido da presença italiana em solo brasileiro data de 1530, com a chegada dos pioneiros irmãos Adorno na frota de Martim Afonso de Sousa. Três séculos adiante a princesa siciliana Teresa Cristina, mulher de D. Pedro II, promovia o primeiro grande intercâmbio cultural da história dos dois povos, ao enviar, para aprimorar seus estudos na terra natal, o músico Carlos Gomes.

O então imperador da Coroa brasileira não deixou por menos: acolher no país anarquistas da região Norte da Itália, que aqui fundaram a Colônia Cecília, berço das idéias libertárias que iriam caracterizar importante período da história do Brasil. Do herói revolucionário Giuseppe Garibaldi ao compositor popular Adoniran Barbosa, filho de imigrantes italianos, heróis dos dois mundos moldaram um novo país com a convicção de que era possível vencer. Os primeiros imigrantes buscaram o desconhecido, não sabiam o que encontrariam, sequer tinham avistado um dia um pé de café.

Muitos voltaram empobrecidos e completamente sem esperança. Mas prevalecia a determinação da conquista, da aventura do descobrimento. Aqui chegaram com suas crenças na labuta, com fé no horizonte. a aposta estava correta, como mostra o crescimento espantoso que experimentou a comunidade italiana no correr dos anos.

Foi pensando em constatar esse papel de fundamental importância que a Parmalat se embrenhou na tarefa de recuperar uma parte do passado e mostrar a evolução das influências italianas no cotidiano do brasileiro.

Nessas duas décadas que marcam a presença da empresa no Brasil, acreditamos ter podido corresponder com nossa contribuição a uma parcela, pequena que seja, da evolução que colocou o país em posição de destaque dentro do novo conceito da globalização da economia. Fazemos parte do exército de italianos que, ao longo dos anos, atravessou o Atlântico para a aventura de conquistar pelo trabalho. Mas para entender o presente é preciso conhecer o passado, e é um pouco disso que pretendemos. Esse livro não é completo nem definitivo. a intenção é de homenagem. Um presente a todos os que um dia saíram da Itália para tentar a sorte no Brasil.

A idéia de realizá-lo vem das origens em Parma, abnegada e sempre atenta às coisas brasileiras, vem do amor e da fraternidade que se fundiu em dois povos depois de tantos anos. Vem da necessidade de fazer a devida reverência aos tantos heróis anônimos que ajudaram a construir este país. Uma justa homenagem aos milhões de italianos e seus descendentes que moram no Brasil.

E CHEGAM OS IMIGRANTES…

Pátria é todo lugar que o homem forte escolhe para morada

A partir de 1825 o mundo começa a passar por um até então inédito movimento de deslocação em massa de populações de um lado a outro do globo. É a imigração maciça de grupos e indivíduos que deixam suas pátrias em busca de melhores condições de vida em terras estranhas. Estima-se que, da segunda metade do século XIX até às vésperas da Primeira Guerra Mundial, deflagrada em 1914, cerca de sessenta milhões de pessoas se engajaram nesse processo de transferência populacional. Esse êxodo envolvia pelo menos três continentes: Europa, Ásia e América.

Em países europeus e asiáticos, principalmente europeus, situavam-se as frentes de expulsão de tais populações, enquanto nos países americanos, entre os quais o Brasil, ocorria um processo contrário. Constituíam uma espécie de bolsões de abrigo, o que acabou originando as nações hospedeiras, que formaram uma heterogênea massa étnica.

Estatísticas nem sempre exatas indicam que, nesse mesmo período, o Brasil teria recebido aproximadamente cinco milhões de imigrantes de diferentes nacionalidades. 30% desse total, ou seja, um milhão e meio de pessoas, eram italianos, vindos de várias regiões daquele país. Esses números colocam a corrente imigratória italiana, ao lado da portuguesa, em primeiro lugar na relação dos demais fluxos que demandaram as terras brasileiras.

Apesar das naturais dificuldades de se obterem números precisos nessa área, todos os autores concordam que no final do século XIX, sobretudo a partir de 1870, registrou-se o maior volume de entrada de italianos no país. A partir dessa constatação pode-se aceitar como legítima, ou defensável, a escolha do ano de 1875 como a data-símbolo do início dessa imigração.

Há indiscutivelmente nesses números sinais indisfarçáveis de preferência na aceitação do italiano como imigrante. Esse sinal claro é resultado de duas ordens de fatores. Uma delas, derivada das condições adversas, políticas e econômicas, pelas quais passava a Itália nessa fase da história, estimulando de múltiplas maneiras grupos e indivíduos a abandonar o país. A outra está ligada não apenas à conjuntura política e econômica que marcava a vida brasileira no final do século passado mas também a um aspecto ideológico, nem sempre explicitado.

Sobre os motivos políticos e econômicos que estimularam a imigração já se falou bastante e muito se escreveu. Sabe-se, entretanto, que nesse plano procurava-se atingir, pela imigração estrangeira, pelo menos três objetivos:

1. A substituição na lavoura do braço escravo pela mão-de-obra assalariada. O movimento abolicionista crescia de forma larga e o descontentamento dos negros crescia na mesma proporção em que se via refuzir a produtividade das lavouras.

2. A constituição de uma classe média até então praticamente inexistente no país.

3. A ocupação e a posse de espaços vazios, alargando dessa forma as fronteiras físicas do poder central e os limites da expansão da civilização ocidental.

Esses três objetivos se desenhavam num painel histórico ligado:

  • A abolição da escravidão, que acabou sendo assinada pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888. Ao terceiro ciclo da economia brasileira – a grande lavoura cafeeira – , que já em 1804 começava a exportar no improvisado porto de Santos, o que rendia à elite da época situação social e econômica privilegiada.
  • À criação de um mercado interno, que só iria ganhar alguma nitidez nas décadas de 20 e 30 do século XX.
  • À produção de gêneros alimentícios para uma população que se urbaniza.
  • À vocação geopolítica tanto do Império como da República de povoar para assegurar a posse de terras virgens, inexploradas, situadas além da civilização.

Tamanho quadro de expectativas e exigências em relação ao papel a er desempenhado pelo imigrante é gerador de um padrão de distribuição bastante irregular dessa população por todo o território nacional. com isso assegurou-se a presença de imigrantes italianos em várias partes do país, mas não se conseguiu evitar a concentração nos atuais estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Só para São Paulo teria vindo 70% de todo esse contingente. Por esse motivo, esses estados são hoje considerados os mais italianos do Brasil.

Criou-se ainda, nesse período, pelo menos dois modelos ou sistemas de fixação dos imigrantes nas áreas rurais: o Sistema de Imigração, que teve como alvo imediato a obtenção de mão-de-obra assalariada ou associada, como ocorreu, por exemplo, em São Paulo, com os núcleos ligados às fazendas de café; e o Sistema de Colonização, que visava ao aumento da população do país com a intenção político-militar de ocupar e defender espaços vazios, como aconteceu com as famosas colônias dos estados meridionais doa país.

Como era de se esperar, imigrantes italianos estavam, por assim dizer, encaixados em ambos os sistemas. Grande número, porém, impossível precisar, escapava desses modelos ou sistemas em direção aos centros urbanos. Nas cidades, esses imigrantes italianos desempenharam atividades na indústria e no comércio, constituindo, posteriormente a parte da população de onde sairiam os capitães de indústrias e os assalariados que dariam volume e consciência política ao incipiente proletariado brasileiro, em especial paulista, ou mesmo paulistano. Em 1900, por exemplo, nas fábricas de São Paulo, 81% da mão-de-obra era italiana.

Nessa fase, a participação da comunidade italiana na sociedade já era muito grande e evidenciava a todo instante o sentido da integração. Em 1889, os italianos fundaram, num gesto de benemerência sem precedentes na história brasileira, a Cruz Branca Italiana para socorrer, em Santos as vítimas das febres infecciosas.

A HORA DE IMPORTAR GENTE ÓTIMA

Os motivos socioeconômicos e de defesa da soberania não são por si só suficientes para explicar a preferência pelo imigrante italiano. Qualquer corrente migratória poderia satisfazer essas exigências, preencher esses conceitos, corresponder às expectativas. Para entender como o italiano coube como uma luva no perfil do imigrante ideal e desejável é necessário deter-se no componente ideológico da questão. Como se escreveu, esse componente nem sempre é bem explicitado, ou talvez tenha sido eclipsado por razões de natureza social e econômica. Mas é preciso que se diga que se estimulava a imigração estrangeira, sobretudo a européia, visando-se ao branqueamento do Brasil, pois a população branca estava sendo suplantada, numericamente, pelos negros e mulatos.

É sabido que os estatutos de pureza de sangue estavam incorporados à história de Portugal e estiveram presentes na vida brasileira, pelo menos em alguns setores, até o final da década de 30 deste século. A Carta Régia de 1830 -; a primeira lei que disciplinou o trabalho de nacionais e estrangeiros no Brasil – previa, entre outros itens, que os contratos de prestação de serviços “não poderiam celebrar-se, debaixo de qualquer pretexto que fosse, com os africanos bárbaros, à exceção daqueles que atualmente existem no Brasil”.

Já em pleno regime republicano, o Decreto 528, assinado pelo primeiro presidente da recém-proclamada República, Marechal Deodoro da Fonseca, em seus primeiros artigos, especifica que não teriam acesso aos portos brasileiros, como imigrantes, os “indígenas da Ásia e da África”. Todavia, os “indígenas da Ásia”, na figura do imigrante japonês, uebram, em 1908, parte dessa discriminação.

Portanto, a incorporação de imigrantes brancos nessa fase da vida nacional representa apenas mais uma etapa histórica rumo à aspirada e definitiva europeização do país.

Essa política de branqueamento inspirava-se, em última instância, em determinados princípios derivados de um pensamento ocidental a respeito da diversidade humana. Esse pensamento, que se alimentava do biologismo do século XIX, classifica e hierarquiza a variedade humana em raças superiores e inferiores, muito antes da barbárie do hitlerismo. Nessa relação de dominação-subordinação, que flui da própria natureza, o pólo da superioridade estava ocupado ou representado pelos brancos e, dialeticamente, no outro pólo estavam, numa espécie de prisão biológica, os negros e os não-brancos, numa clara demonstração de racismo. compondo esse espectro teórico estavam as escolas criminológicas francesa e italiana, esta última representada por Ferri e Lombroso, que tiveram grande influência no pensamento brasileiro, em especial na Medicina legal.

O imigrante italiano, portanto, compunha muito bem o personagem desejado, correspondia plenamente a este perfil: era europeu e branco,, latino e católico-romano, o que o tornava compatível com a sociedade e a cultura brasileiras que se desejava implantar. Sob outro ângulo, podem-se ver as coisas da seguinte maneira: o italiano não era uma ameaça aos fundamentos da tradição cultural da nova pátria nempunha em risco a hegemonia da Igreja católica.

Depois de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, José Artur Rios, estudioso da imigração estrangeira, fez o seguinte comentário em sua obra Aspectos políticos da assimilação do italiano no Brasil: “a esperança agora está numa ampla política imigratória que permita ao Brasil receber o tipo de imigrante mais adequado às suas necessidades, mais adaptado às suas tradições. Só assim o italiano voltará a dar a nosso país, como outrora, o melhor de sua energia e de seu sangue”. Essa passagem faz lembrar de novo o artigo de Rubem Braga, citado no começo deste livro, no qual se referia à oportunidade de o Brasil poder “importar” essa “gente ótima”, que tanto fazia perguntas sobre o Brasil e demonstrava claramente o desejo de se mudar para cá.

Havia motivos de sobra para que de fato houvesse uma corrida de italianos para o Brasil. Isto, porém, não ocorreu. Depois da guerra, em 1951, o imigrante italiano retornou ao Brasil empurrado pelo Plano Marshall. Vieram pouco mais de cinqüenta mil pessoas, em torno de 60% dos 112 mil europeus que decidiram adotar o Brasil como pátria no pós-guerra. Desse universo saiu o grupo de quase 180 famílias que fundou o derradeiro núcleo de colonização no Estado de São Paulo: Pedrinhas, hoje município com cerca de três mil habitantes (60% deles descendentes dos imigrantes italianos), localizado nas proximidade de Assis, no Vale do Paranapanema, e cuja economia é baseada na agricultura de soja, trigo e milho.

Com o passar dos anos, a contagem do número de descendentes italianos no Brasil se perdeu. Não há definitivamente forma de contabilizar os de segunda e terceira gerações. a única apreensão possível do volume dessa população é através da sua visibilidade na sociedade brasileira. Os italianos se destacaram em vários campos, mas não rivalizaram; somaram esforços e contribuíram na condução de um país que hoje respeita e é respeitado em todo o mundo.

GRAN FINALE

“Cosa fatta capo fa”

(o que tem começo tem fim)

Talvez se possa afirmar que a identidade italiana no brasil tenha passado por três etapas. A primeira se caracterizou pela busca de preservação de uma identidade ameaçada em país estranho; a segunda, pela adesão ao novo país; e a terceira, que ocorre nos dias atuais, se caracteriza pelo resgate dessa identidade italiana que se supunha já perdida. Na terceira etapa situa-se o que se pode chamar de “Nova Itáia”, um país moderno, pós industrial. O avesso da Itália pobre, que se viu compelida a drenar sua população para outros países. E essa “Nova Itália”quer resgatar sua italianidade.

Esse discurso nasceu do governo italiano, mas deriva também da imagem propagada pelos produtos italianos. No brasil ele é reforçado pelas instituições culturais que historicamente se encarregam da difusão da cultura erudita italiana, como a Fundação Dante Alighieri e o Instituto italiano de Cultura. Além disso, criou-se uma nova categoria de italianos fora da Itália pós-período-migratório: os italiani all’ stero (italianos no exterior). Na representação do descendente de italiano, a política governamental, os produtos sofisticados, o aspecto erudito da cultura e a categoria italiani all’stero formam esse novo conceito. Transformou-se num anseio de identificação, que no Brasil é expresso claramente nos adesivos em automóveis do Rio Grande do Sul e Santa Catarina: Graças a Deus sou italiano!

No início deste livro, um dos maiores escritores do Brasil, Jorge Amado, cuja obra é reconhecida em todo o mundo- não sem motivo é o estrangeiro mais lido na Itália-, lembra bem a saga de famílias que deixaram para trás uma história para mergulhar no desconhecido. “Muitos chegaram trazidos pela necessidade, outros escapavam da perseguição política”, descreve Jorge Amado, um conhecedor da cultura italiana como poucos, muito pela convivência de meio século com a mulher Zélia Gattai, uma italiana de segunda geração.

Este livro é sobretudo isso, um passeio pela história de gerações e gerações de italianos que vieram para o Brasil em busca de aventura, de asilo político, de trabalho, de riqueza, em busca de amigos e parentes, na tentativa às vezes de apenas matar a saudade.

É para esse exército de anônimos que a Parmalat se curva sempre. Por isso, vez por outra, buscou-se citar nomes de famílias, histórias ao acaso, pois foram essas personagens que fizeram a história do Brasil, que ajudaram junto com imigrantes de outras nacionalidades, a construir uma das maiores economias do mundo.

MILLE GRAZIE!

Quando recebi um telefonema, em uma segunda-feira de 1976, pensei na travessia dos primeiros imigrantes. Do outro lado da linha, um diretor da matriz da Parmalat, em Collecchio, cidadezinha da região de Parma, queria saber se eu tinha nteresse em trabalhar no Brasil. O que eu podia esperar do novo país? Apreciava o futebol brasileiro e conhecia um pouco da história da imigração italiana. Mas era só. Dois dias depois do telefonema, eu pegava um avião e chegava a São Paulo. Era jovem, 24 anos, e novato de vendas na Parmalat. Na bagagem trazia o conhecimento sobre o leite, produto principal da empresa. No ano seguinte, em 1977, a Parmalat instalava sua primeira fábrica no brasil, na cidade de Itamonte, Minas Gerais, e era uma empresa ainda pouco conhecida e estava longe de ter a fama do povo italiano: falar em alto e bom tom.

Em 1989, quando muitos achavam que o país não tinha jeito, quando os especialistas recomendavam cautela, nós resolvemos driblar a crise e investir. Fincamos laticínios em todos os cantos do país, aprimoramos produtos, entramos em novos segmentos e colocamos nossa marca no esporte. Em vinte anos de Brasil, a Parmalat conquistou e foi conquistada. Deixamos de ser uma companhia metódica e avessa a riscos. Crescemos a partir do trabalho de funcionários e executivos brasileiros. Repetíamos a história: os dois povos juntos na tarefa de construir uma sociedade próspera.

Sempre acreditamos que o Brasil iria encontrar sua rota de desenvolvimento, do mesmo modo que os italianos que aqui chegaram a bordo de navios no século passado, à procura de dias melhores.

E, segundo os registros oficiais, entre 1890 e 1899 entraram no país 1.205 milhão de pessoas, sendo 57,2% originários da Itália. A maioria delas tinha como destino a capital paulista. O que seria essa América? O que encontrar nessa nova terra tão distante da Itália?

Quando desembarquei em São Paulo vindo de Traversetolo, cidadezinha próxima à Pauma, costumava ouvir o seguinte, em tom de brincadeira: metade da população de São Paulo é descendente de italiano e a outra metade, italiana. Siamo tutti oriundi. As culturas brasileira e italiana estão unidas que parece impossível desfazer esse amaranhado cultural. Este livro é uma homenagem não apenas aos italianos, mas a todos os imigrantes, famosos e anônimos, que aqui chegaram e fizeram a história de um novo país. Seus filhos e netos já nasceram em um Brasil que ajudaram a construir. Grazie mille, brava gente!!.

Um comentário em “Genealogia – Italianos no Brasil

  • 23/02/2017 em 21:52
    Permalink

    Olá, gostei da sua resenha e gostaria de saber o título deste livro e o ano de sua publicação.

    Obrigado,

    David. Protti

    Resposta

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